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CURIOSIDADES
E FATOS
Concreto Armado em Socorro
1ª Ponte de Concreto Armado Estado de São Paulo

Artigo
publicado em 1910
Reconhecida a dificuldade de um futuro prolongamento da linha,
o primitivo projeto de ponte terminal do Ramal de Socorro, nesta
cidade, foi alterado, passando a Estação a ficar
situada na extremidade de uma tangente, com cerca de um quilometro
de extensão, á margem esquerda do Rio do Peixe.
Se de um lado facilitou-se o prolongamento da linha, por outro
afastou-se mais a Estação do centro comercial da
cidade para uma posição de acesso relativamente
difícil principalmente na época das chuvas em que
um ribeirão, o dos Machados, situado entre a estação
e a cidade, alaga os terrenos intermédios.
Como solução imediata do problema, impunham-se:
a construção de uma ponte sobre o ribeirão
e a execução de uma boa estrada, futura rua, com
fracas declividades e ao abrigo das águas das enchentes.
A Companhia Mogyana chamou logo a si esse serviço e, generosamente,
á sua custa, tomou a peito realizá-lo. E, fez mais:
a estrada de rodagem substituiu por uma Avenida de 150mts de largura
e resolveu construir a ponte em concreto armado que tão
bem se presta á esthetica das obras d’arte, pelo
aspecto audaz e elegante que lhes imprime e que sahe fóra
dos moldes do typo usual de pontes que se encontra no interior.
O ribeirão, normalmente com 2mts, de largura e menos, na
época das águas alagamento consideravelmente de
volume exigindo uma grande vasão como uma das características
da ponte.
Escolheu-se o tipo de ponte em arco, uma aza de cesto, e os encontros
vasados também por arcos de modo a, no caso de uma cheia
anormal, virem em auxílio do arco central, alliviando-o
na passagem das águas. Em suas linhas geraes a ponte em
questão, de 28,40 ms. de comprimento, tem seu taboleiro
assentando em 3 arcos: o central, em aza de cesto, de 3 centros,
com 12,00 ms. de vão livre e 3,00 ms. de flexa, 1/12 portanto
de abatimento e, os outros dois, plenos, de 4,00 ms. de diâmetro,
constituindo o vasamento dos encontros. Sua largura é de
9,00 ms., dos quaes, 6,00 ms. de parte carroçável
e 1,50 m. de cada lado, formando os passeios.
O encontro da margem direita assenta directamente no solo (com
um colchão de 0,10 ms., após seccamento, de pedra
britada) regular como fundação, mas, francamente
aceitável devido a sua grande área e consequente
pressão especifica muito pequena. Devido a se manter uniforme
a natureza do terreno, á maior ou menor profundidade de
escavação, o vasamento desse encontro trouxe como
conseqüência a independência do embasamento geral
dos pequenos anneis, de um e outro lado, ficando uma das sapatas
em nível inferior á outra.
O encontro da margem esquerda, assentando sobre uma sapata única,
foi, devido á pessima natureza do terreno, construído
sobre estacaria. O serviço de estaqueamento durou cerca
de 2 mezes, foi feito com dois bate-estacas (582 e 562 kg respectivamente)
servidos a principio com trabalho manual e logo depois substituído
pelo mecânico, o que veio argumentar de cerca de 5 vezes
o rendimento do serviço.
Foram estaqueados 42 pontos com elementos de esquadria 0,25 x
0,25 ms. de peroba, batidos até á nega de 2,50 cms.
Para uma queda do peso de 4,00 ms. de altura, dez vezes repetida.
É bom notar o máo resultado dessa grande altura
da queda para madeiras de grande resistência, principalmente
quando seccas, mormente em se tratando da peroba em que as fendas
são tão communs.
A penetração máxima de uma estaca foi 24,00
ms abaixo do nível ao fundo do ribeirão.
A sapata de fundação, de 0,15 m. de espessura, de
5,00 ms. por 9,00 e 2,00 x 9,00 ms., no encontro da margem direita
e de 8,20 x 9,00 ms., única, no da esquerda, assenta sobre
uma camada de 0,10 ms, após soccamento, de pedra britada.
Sempre que possível foram empregados grandes soquetes de
20 kgs e nos caixões dos muros usados em forma de cunha,
para melhor destribuição da pressão. O concreto,
no traço de 1:4:8 (barricas) nas fundações
e muros, e 1:3:6 nos anneis, foi sempre cuidadosamente misturado
a secco e usado em farofa de modo á só lacrimejar
depois de por algum tempo ter soffrido acção do
soquete.
A armação geral da ponte foi toda feita com ferros
redondos de 0,01 m e 0,005 m., espaçados nos muros, taboleiro
e sapata de 0,20 m, eixo a eixo e dispostos de forma tal a apresentarem-se
sempre os elementos de maior diâmetro onde pudessem apparecer
esforços tractivos.
Do radier e dispostos parallelamente ao eixo longitudinal da ponte,
espaçados de 1,00 m entre eixo, nascem os muros que vão
supportar o taboleiro da ponte e ao mesmo tempo servir de apoio,
de um lado aos anneis de 12,00 m e do outro aos de 4,00 m que
vasam os encontros.
Esse muros quando resistindo ao empuxo do grande arco tomam a
forma de um triangulo rectangulo, do qual, uma tangente, nos rins,
á curva do extradorso é a hypothenusa e um dos cathetos,
o da base, tem uma dimensão egual a 5,00 m.
No primitivo projecto da ponte o taboleiro assentava sobre uma
superfície cylindrica o que foi posteriormente modificado
reduzindo-se a secção de trabalho a simples anneis,
de 0,40 m de largura por 0,15 m de espessura no fecho e 0,25 m
nos rins.
Nesse anneis os ferros foram dispostos com cuidado especial e
o soccamento do concreto cuidadosamente feito, de modo tal a não
permitir ausência do metal onde apparecessem esforços
de tracção.
O taboleiro da ponte, constituído por uma camada de concreto
de 0,15 m, tem como reforço, longitudinalmente, de metro
em metro, um trilho de 19,5 k por m corrente.
Esses trilhos assentam nos fechos dos anneis e descançam
sobre os muros que nascem nas sapatas. Sobre o taboleiro existe
um colchão de terra de 0,25 m de alto.
Constituindo uma amarração entre os anneis existem
uns tarugos, em concreto armado, de 0,15 m por 0,15 m.
Os muros extremos, transversaes, constituindo os topos da ponte
e servindo de amparo ás terras, são de 0,08 m de
espessura.
A experiência de resistência da ponte foi feita com
carregamento de trilhos e dormentes, distribuídos da forma
mais desfavorável, chegando-se a ter collocado a enorme
carga de 1.400 kg por metro quadrado. A pequena flexa, marcada
durante a experiência, no centro da ponte, desappareceu
por completo quando descarregada.
Como se vê nas photographias não se descurou do aspecto
architectonico da obra.
A importância dos encontros dos grandes anneis foi evidenciada
com pilastras e contrapilastras decoradas com canelluras e encimadas
com um florão em estuque.
Em continuação a essas pilastras foram construídos
supportes para os combustores da iluminação e com
maiores dimensões de modo a deixar á mostra os grandes
elementos de resistência da obra.
O guarda-corpo da ponte é feito com canos de 1"e 1/2"
fixado, por meio de montantes, também de concreto armado,
com molduras interrompidas e cuidadosamente feitas. O revestimento,
todo executado de cimento branco e commum, completam o acabamento
da obra, pondo em relevo as diversas molduras, destacando-as perfeitamente
dos planos secundários.
S. Paulo, 3 de Outubro de 1910. - Guilherme E.
Winter
Revista Polytechnica Nº 31/32 (Páginas de 24 a 28),
Maio - Outubro de 1910 -S. Paulo-Biblioteca da Escola Politécnica
de São Paulo USP.
Fonte:
www.socorro.tur.br / www.estanciadesocorro.com.br
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